A frase acima foi dita por uma interlocutora ao final de uma reclamação desse modesto articulista, que se manifestou sobre alguma ocorrência menor diante da dor que em seguida ela narrou, ao lembrar-se da morte do filho em circunstâncias trágicas – e que more não o é? A mãe calou-me ao descrever o sentimento que lhe corrói desde que enterrou seu único herdeiro, vítima de um acidente de trânsito.
Minha reclamação perdeu o sentido diante dos olhos lacrimejados daquela mulher, que tentava conter uma explosão de dor ainda maior. Fiquei no mais absoluto silêncio enquanto ela se desmanchava em lágrimas, entrecortadas por soluço discreto, que expressava a profundidade de sua dor que o tempo não arrefece. O intenso sofrimento vive em sua alma, a cutucar-lhe o coração a todo instante, a lembrar-lhe da sua perda.
Creio que apenas pais podem avaliar a extensão dessa dor – e naquele instante não apenas partilhei aquele sentimento, como de alguma forma também o senti. Hoje, decorrido muito tempo desse episódio, ainda contenho-me ao evocar alguma situação que me parece desfavorável. Às vezes nos frustramos e sofremos por coisas pequenas quando comparadas com episódios bem mais intensos e inesquecíveis.
Certo é que cada um tem sua dor e sua extensão é uma experiência individual. Na prática, não existiria sofrimento maior ou menor exatamente pelo personalismo que permeia cada ocorrência. Mas não há dúvida que muitas vezes reclamamos por pouco. Damos uma dimensão maior do que deveria a acontecimentos menores quando comparados a outros, cujo impacto é infinitamente maior. A morte é uma dessas tragédias de maior dimensão.
Não se trata aqui de atribuir um parâmetro para avaliar a dor – se maior ou menor. Mas mesmo sem entrar no mérito desse debate, é lícito reconhecer que a perda de um ente querido por conta de uma tragédia é acontecimento que cala fundo na alma e no coração. Quando se sepulta um filho, a dor parece ganhar uma dimensão inacreditável e se insinua como eterna. Não passa. Fica incomodar para sempre.
Incomoda como lembrança e saudade. “Enterramos um pedaço de gente e a ferida que fica não cicatriza – e dói!”, contou-me a mãe que me silenciou como uma pungente história de sofrimento. Não há lágrimas que bastam para expressar o sofrimento. O coração se aperta nas circunstâncias mais improváveis e descortina aquele passado de convivência, de sorrisos, de planos, de amor mútuo... Amor de mãe é incondicional. É amor em sua forma mais pura.
Muito se aprende com pequenas histórias contadas ao sabor do acaso. Lembradas como a nos ensinar que há sempre por aí sofrimento mais intenso que aquele que sentimos – às vezes por razões que descobrimos depois tão pequenas... Aprendi com essa mãe a avaliar melhor a minha dor e a tê-la como menor e suportável por não ser assim eterna e inesquecível. Tudo passa e se perde no tempo. Menos a morte de um filho. Que eles nos enterrem; nunca nós a eles.
Lição de tamanho e importância semelhantes aprendi também ao manifestar tristeza por um ocorrido que não merecia tanto. Chamou-me a atenção um amigo, mais vivido: “antes de reclamar de algo tão pequeno, faça uma visita a um hospital onde se internam portadores de câncer. Você ainda tem opções para resolver seus problemas. Eles não. Para alguns, resta apenas um milagre. Para muitos, a morte inevitável ao final de uma luta inglória, permeada de dor e muito sofrimento”.
Mas a vida é assim, feita de pequenas e grandes dores. Alguns convivem com mágoas profundas, riscadas na alma por conta de ocorrências inesquecíveis – e trazem no semblante aquela tristeza indisfarçável, que se expressa em lágrimas freqüentes, como se vertê-las ajudasse a minimizar a dor. Seja qual for o tamanho da nossa tristeza, conviver com elas é continuar a deixar pegadas pela vida, certo que em muitos momentos as marcas se aprofundam – é quando Deus nos carrega!